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Minha coleção tamarindo de autores paraibanos
(Manuela Fialho)
Fui na bienal do livro da paraíba na sexta para o lançamento do livro do poeta-contista Antonio Mariano. Quando chego por lá, achei-me atrasada, e tava um zum-zum-zum danado. Era o lançamento sim, de Mariano e mais nove autores, numa caixa de coleção. Estou que nem a menina do conto de clarice com os livros à mão, olhando e apreciando, com medo de abrir e do que vou encontrar. Então inventei um critério, por simples questão de gênero, comecei pelas autoras - achei lindo o livro de janaína azevedo, como me lembrou os cantares de Hilda Hilst as vinte e duas canções de amor para um homem só. A poesia do amor e de seus conflitos. Depois, que maravilha, as crônicas do amanhecer, de maria josé limeira. Eis uma nova amiga, e de muita coragem.
Fonte: http://www.maiomargaridas.blogspot.com/
TUDO QUE É BOM NÃO TEM LÓGICA:
Maria José Limeira
Amor correspondido.
Beijo roubado.
Samba sacudido.
Terra e gado.
Passarinho fugido
da gaiola.
E mais outras coisas
que eu não posso dizer.
LEILÃO DE POESIA
Maria José Limeira
Vendo tudo que tenho:
a casa, o ar, a maresia,
o pássaro, a senha,
caracteres digitais,
meus quintais,
o engenho.
Não vendo minha Poesia.
Possíveis compradores
dos meus versos
regateiam preços,
pedem abatimento
ou querem tudo de graça.
Fecho minha loja
para balanço.
Estou de greve.
Escrevo requerimento
ao Ministro da Cultura.
Peço ressarcimento
dos prejuízos.
Todo poeta é um ser
incompreendido.
VIAGENS
Maria José Limeira
Viajei luas & sóis.
Dei saltos & cambalhotas.
Vi anoiteceres & caubóis.
Escrevi ipsilones & jotas.
Ultrapassei meus limites.
Adormeci na praia.
PASSARINHO PIU-PIU
Maria José Limeira
Canta passarinho.
Escreve canção de amor.
Depois, na volta ao ninho,
adormece langor...
MEU BEIJA-FLOR
Maria José Limeira
Enquanto houver Poesia.
Enquanto houver ilusão.
Enquanto houver fantasia...
não há PCC que resista
à minha canção.
JOGUEI MINHAS FRASES FORA
Maria José Limeira
Quem primeiro voou longe
foi "Eu te amo".
Em seguida, joguei fora
"Eu te perdôo".
O "Jamais te esquecerei"
foi esquecido.
Só não foi possível estraçalhar
minha saudade...
AMIGA DE FÉ
Gonzaga Rodrigues
Maria José Limeira, novembro/dezembro de 1963, eu preso a uma lesão extensa e profunda no ápice do pulmão esquerdo. A prisão dentro de mim, por mais janelas de luz e espaços de terra e céu que a manhã tropical pudesse prodigalizar.
Cumprindo o "repouso absoluto" da manhã, estirado na cama com as duas mãos na nuca, procurava no teto branco da enfermaria algum sinal imaginário do horizonte que, dali por diante, a doença e o futuro me delineavam. Sem dor, sem tosse persistente e já me insensibilizando dos constrangimentos do hospital, deixava-me ficar horas e horas com o pensamento naquele teto branco que servia de tela para as figuras, coisas e situações das quais a doença me retirara.
Como a enfermaria ficasse próxima à recepção, pude ouvir do meu leito a voz bem clara e sonante de quem reclamava inconformada por não poder visitar-me fora do horário pré-estabelecido. "Isso é absurdo !".
Era o protesto de Maria José Limeira, irmã branca e mui querida de juventude e de pendores literários e políticos. Vivíamos as mesmas leituras, os mesmos auditórios, o mesmo sonho perseguido de "a cada um de acordo com a sua necessidade e de cada um de acordo com a sua capacidade". Maria muito mais firme e participante.
Num flash-back de quatro décadas, tenho agora o privilégio de revisitá-la nas crônicas que o editor Juca Pontes vai lançar ao pôr do sol de hoje, na Bienal do Espaço Cultural. O EU de Augusto não é mais coerente. Desde o primeiro título, "Aldeia Virgem - alem", ao painel intimo de agora, subsiste uma guerreira que nunca sarou das injustiças, da violência manifesta ou latente contra o lírico do homem e da cidade. E que tem, no "bota abaixo" da rua de sua infância a força de um sentimento do mundo. Leio Maria como leio Augusto. Nada do que escrevem me deixa imune.
.............
gonzagarodrigues@hs24.com.br
Fonte:
Jornal O Norte
Em 25.05.2006
http://jornal.onorteonline.com.br/quinta/gonzaga.htm
SEMINÁRIO INTERNACIONAL DE DIREITOS HUMANOS
Olá, amigos? Recebi este scrap abaixo, no Orkut, e repasso aos interessados. A internet também tem notícias boas. Saludos, e obrigada a Camila por dividir esta mensagem com a gente.
Maria José Limeira.
...........
Olá, Maria José. Acompanho as discussões na comunidade de Direitos Humanos e percebi que você é ativa nos debates. Então, mais que um convite, peço sua ajuda para divulgar o III Seminário Internacional de Direitos Humanos, que acontecerá aqui
Um grande abraço!
(Camila)
ORAÇÃO DA PROFESSORA TRANQUEIRA & MALVADA
Maria José Limeira
(Inspirada nas professoras malvadas e torturadoras, que comem criancinhas assadas na brasa)
"Senhor, eu me arrependo de torturar criancinhas em salas de aula e de comê-las assadas. Sou bandida muitas vezes por querer somente ganhar o dinheiro sem dar aulas regulares. Eu me arrependo de ter abraçado a profissão de professora, sem vocação. Prometo, Senhor, que vou mudar de ramo, e doravante serei apenas faxineira da escola, para lavar os banheiros e cheirar o chão.
“Senhor, eu quero me redimir de tantas vezes ter dormido de calcinha, quando meu marido não me procurava, pois ele vivia nas ruas caçando quengas melhores de cama do que eu. E eu descontava o ridículo da minha situação em cima das crianças inocentes nas salas de aulas, tratando-as como animais, e taxando-as de marginais antes que provassem o contrário. E tinha inveja da exuberância adolescente das minhas alunas que compareciam às salas de aula muito belas, enquanto em mim havia apenas um rosto maltratado pela carência sexual, sem solução. Perdoai-me, Senhor, eu viver desde há tanto tempo subindo pela paredes (SPP), com um marido que prefere as mulheres das ruas do que eu, sua Santa Esposa, torturadora de alunos e comedora de criancinhas, a favor da chacina do Carandiru, e defensora da idéia Bandido Bom é Bandido Morto.
Ajudai-me, Senhor, a me regenerar desses maus pensamentos, para voltar a ser humana...”
GOVERNOS TÊM MENOS CREDIBILIDADE QUE A IMPRENSA NOS PAÍSES POBRES
Notícia publicada no Código Aberto, de Carlos Castilho:
"Uma pesquisa divulgada em Londres mostra que os habitantes da América Latina, Ásia e África confiam mais na imprensa do que nos governos de seus respectivos países. Os resultados da pesquisa encomendada pela BBC, agência Reuters e pela ONG britânica Media Center mostram também que nos países ricos da Europa e América do Norte, os governos têm mais crédito do que os jornais, revistas, rádio e televisão."
Fonte: http://www.pontodeanalises.blogspot.com/
FUTUROS ESTOUROS
Maria José Limeira
Estou aqui pensando
com os botões
da minha própria blusa.
O que será que vai acontecer
quando as pessoas descobrirem
que eu não sou eu?
E, não sendo eu,
não sou responsável
pelas bombas terroristas,
e pelas balas perdidas
que pipocam
à sombra dos edifícios.
TROCANDO DE CANAL E DE TV
Maria José Limeira
Quando as imagens passam a ser
policiais fardados
metralhados nas ruas,
é melhor trocar o aparelho de TV.
Esses produtos de som
e eletro-domésticos
de hoje em dia
são de cavaco-chinês.
Quando apresentam defeitos,
devem ser jogados fora.
A vida é um objeto reciclável!
DELÍRIO TREMENS
Maria José Limeira
Quando o alcoólatra
vê flores dentro do copo,
é porque a geladeira da casa
abriga soldados do exército,
debaixo da cama tem jacaré
e o roxo é cor de luto...
CAMPO DE FLORES
Maria José Limeira
As flores selvagens
do campo
são mais bonitas
do que as rosas
artificiais
que as janelas
dos apartamentos
exibem.
VIRTUDES & PECADOS
Maria José Limeira
Virtude é muito boa.
Mas, tem gosto de sopa
de perna de anjo:
fria!
Já o pecado...
Vale a pena sonhar!
SOLTANDO A FRANGA
Maria José Limeira
Meu grito do Ipiranga
foi dado numa tarde morna.
Eu & você, sem canga
e sem porta.
UTI
Maria José Limeira
São brancas as paredes
do quarto do hospital.
Mas, é na UTI
que nossos segredos
se revelam.
HIPÓCRITAS NO DESERTO
Maria José Limeira
Acho que os hipócritas
deveriam morar no deserto.
Somente assim chegariam
a dar valor
ao Sermão da Montanha.
ANJOS
Maria José Limeira
Anjos são entidades
etéreas
sem sexos.
Por isto, só sentem ciúmes
de Deus.
ESTRELAS & SÓIS
Maria José Limeira
Quando os olhos anoitecem,
sonhos são estrelas
e desejos explodem
sóis.
A sós.
LUZ INCERTA
Maria José Limeira
Quando falta
luz elétrica
não basta acender
a vela.
É preciso ter
bons olhos.
DIA DA DERROTA
Maria José Limeira
Quem desiste do sonho
abre mão de si mesmo.
Opta pelo vazio e inicia
a marcha da capitulação.
CORAÇÃO PARTIDO
Maria José Limeira
Quando você me deixou,
meu coração partiu-se
em dois.
Um lado rastejou
como cobra,
implorando perdão.
O outro, subiu
ao vigésimo-primeiro andar
e pulou no vazio.
O mais interessante
é que meu lado suicida
sobreviveu.
Mas, o outro lado
(cobra!)
perdeu-se no meio
da mata.
Saiu de circulação.
FLOR & ASFALTO
Maria José Limeira
A coisa mais certa
desta vida
é que não nasce flor
no asfalto.
Mas... se nascesse?
Seria atropelada
pela pressa.
UM INSIGNIFICANTE CAMUNDONGO SEM CÉREBRO
Maria José Limeira
Era um insignificante
camundongo sem cérebro.
E, por isso mesmo,
não sei por que gritava tanto
na hora de morrer...
O sofrimento é assim:
não tem nome.
MEMÓRIA
Maria José Limeira
Foi tanta coisa bonita
que vivemos juntos.
Mas só me lembro mesmo
de uma:
a coisa do adeus...
ESPELHO MEU
Maria José Limeira
Confronto o espelho
de mim mesma
e uma imagem fugaz
me diz que estou distante,
como se tivesse ido embora.
POEMA INACABADO
Maria José Limeira
Uma rosa murcha
na cama vazia.
Um disco arranhado
tropeça no cio.
Um silêncio zangado.
O frio.
O resto só posso contar
quando você voltar.
BRUXAS & COMUNISTAS
Maria José Limeira
As bruxas foram queimadas
em grandes fogueiras.
Escondem-se em densas
florestas.
Os comunistas são eternos.
Bruxas & comunistas
são fortes e belos.
BARATAS, BOMBAS, RELÂMPAGOS
Maria José Limeira
Quando a barata voa
e cai no decote
do vestido da mulher,
aiaiai...
Isto faz cócegas!
Quando estoura uma bomba
no meio da rua,
mulher pensa logo
em noite de São João,
e sai para o terreiro.
Dança baião!
Quando relâmpago clareia
o céu,
eu me agarro logo
com o alguém que está comigo
na cama,
rezo em voz alta:
-Santo Anjo do Senhor!
O ANIVERSÁRIO DE UMA RAINHA
NA VOZ DO MENOR VASSALO
Anibal Beça
(Para Maria José Limeira)
Na lagoa de João
Pessoa da Parayba
um arrepio nas águas
dos tempos dos caraíbas
é o mesmo que hoje passeia
ondas na pele eriçada
de homens de fora e os de casa
quando a avistam na calçada.
Quem é ela, quem é ela?
é o bochicho forasteiro
na passagem da José
que é Maria de Limeira
prima-irmã de um certo Zé
que fez do absurdo um luzeiro.
Essa Maria não vai
nunca como outras Marias.
Desde cedo se afirmou
com vontade e decisão
sem perder sua ternura
leva a vida pela mão.
Poeta de raros dotes
de texto bem humorado
seus versos ganharam mundo
na Rede que é seu reinado.
Não é rede de dormir
que a preguiça não lhe habita
pois sabe que a eternidade
será leito da bendita.
Me refiro à Internet
onde ponteia brejeira
pelos links de ultramar
abrigando bucaneiros
Essa tchurma da WEB
piratas indeletáveis
regados no seu carinho
vinho nobre palatável.
E daqui dessa Amazônia
lhe envio a Vitória-régia
a flor que merece a rainha
pela data mais egrégia.
BALAIO DE GATOS
Maria José Limeira
O balaio de gatos
está cheio.
Superlotado.
De longe,
ouço as reclamações.
BOLA DA VEZ
Maria José Limeira
O dono da bola
é aquele
(infelizmente)
que põe o dedo
na ferida
e ordena:
-Atirar!
APAGOU-SE O QUE ERA DOCE
Maria José Limeira
Apagou-se a serenata.
Acabou-se o amor.
Murchou a madrugada.
O que era doce amargou.
BURACO NEGRO
Maria José Limeira
Nossos lençóis manchados.
Nossas meias furadas.
Nossas roupas íntimas.
Tudo foi parar
na lavadeira centrífuga,
o buraco negro
que lava tudo,
e o gato carregou.
Aqui na minha casa,
não há mais diálogo.
O gato é mudo.
LEVIANDADE
Maria José Limeira
Dentro de todo homem,
há um gato dengoso,
de olho
nas gatinhas que piscam.
FILHOTES DA POESIA
Maria José Limeira
Luares, vagalumes,
clarões, pipocos,
estrelas saltitantes
e tiros no meio da noite.
São surpresas
que a Poesia nos revela,
sem nenhum aviso,
quando o sol se esconde.
ASSASSINAR O DESEJO
Maria José Limeira
Coisas que baixam o tesão:
Calcinha bem-composta.
Dá o sim antes do tempo.
Na hora da paixão, dizer:
-Preciso fumar um cigarro.
HIP-HIP HURRA!
Maria José Limeira
Não existe coisa mais triste
do que na hora do Parabéns Pra Você,
alguém se lembrar de perguntar:
-Afinal de contas, quantos anos você tem?
MARGARIDA DESFOLHADA
Maria José Limeira
Quando Margarida
começou a contar
folha por folha,
(bem-me-quer? mal-me-quer?)
o tempo havia passado.
Sem mais escolha,
ficou com a última opção
sofrida.
Dolorida!
AMOR & ÓDIO
Maria José Limeira
Quando o amor passou,
tentei cultivar o ódio.
Mas... como era
que eu ia poder
odiar as criancinhas?
AS PEÇAS QUE A MENTE NOS PREGA
Maria José Limeira
Tentei amar usando os poderes
da mente.
Mas, meu coração protestou:
"Sai daí! Ninguém toma
o meu lugar!"
DE ONTENS, HOJES & AMANHÃS
Maria José Limeira
De que nos servem
os ontens,
se os hojes
são tristes
e os amanhãs
nem tanto?
CULPA DE AMAR
Maria José Limeira
Confesso minha culpa.
Amei a pessoa errada,
num país distante,
numa terra estranha,
sem saber falar Inglês.
RETORNO
Maria José Limeira
Quando você reapareceu
à porta da minha casa,
após os anos
de ausência,
encontrou outro
em seu lugar.
Ele não é bonito
nem cheiroso.
Mas, pelo menos me ama
bem mais do que você.